Introdução
Segundo dados publicados no Journal of the American College of Cardiology em 2023, a doença das válvulas cardíacas afeta quase 30 milhões de pessoas no mundo apenas na forma não reumática, sendo responsável por centenas de milhares de mortes a cada ano. No Brasil, o cenário é ainda mais complexo: convivemos tanto com a valvopatia degenerativa em idosos quanto com a forma reumática em adultos mais jovens. Identificar a valvopatia precocemente, antes que o coração se deteriore de forma irreversível, é uma das prioridades do Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo e do Instituto Inject, em Marília-SP.
Veja a seguir os tópicos que serão abordados neste blog post: Valvopatia: Entenda as Doenças das Válvulas do Coração
- O que são as válvulas do coração e qual é a sua função
- O que é valvopatia e quais são os principais tipos
- Causas e fatores de risco para o desenvolvimento de valvopatia
- Sintomas da valvopatia: quando o corpo envia sinais de alerta
- Como é feito o diagnóstico da valvopatia
- Quais exames complementares auxiliam na avaliação
- Opções de tratamento: do acompanhamento clínico à cirurgia
- Vida com valvopatia: controle, prevenção e qualidade de vida
A valvopatia é uma condição que, por vezes, avança em silêncio por anos antes de provocar qualquer sintoma perceptível. Conhecer os fundamentos dessa doença das válvulas do coração pode ser determinante para a sua saúde cardiovascular. Continue lendo e entenda por que o diagnóstico precoce transforma o prognóstico.
1. O que são as válvulas do coração e qual é a sua função
O coração humano possui quatro válvulas que funcionam como comportas de sentido único, garantindo que o sangue flua sempre na direção correta durante cada ciclo cardíaco. A válvula mitral e a tricúspide separam, respectivamente, os átrios dos ventrículos esquerdo e direito. Já a válvula aórtica e a pulmonar controlam a saída do sangue dos ventrículos para as grandes artérias — a aorta e a artéria pulmonar.
Em condições normais, cada válvula abre completamente durante a fase de enchimento ou de ejeção e fecha de maneira estanque, impedindo o refluxo. Esse mecanismo preciso garante que o organismo receba sangue oxigenado de forma eficiente. Quando qualquer uma dessas estruturas perde sua capacidade de abrir ou fechar adequadamente, instala-se o que chamamos de valvopatia — o comprometimento funcional ou anatômico de uma ou mais válvulas cardíacas.
Segundo a Diretriz da Sociedade Europeia de Cardiologia e da Associação Europeia de Cirurgia Cardiotorácica (ESC/EACTS) de 2025, a avaliação clínica cuidadosa seguida de ecocardiografia permanece o pilar central para confirmar o diagnóstico de valvopatia, avaliar a etiologia, a função e a gravidade da lesão. Compreender essa anatomia funcional é o ponto de partida indispensável para entender como a valvopatia afeta a vida de quem convive com ela.
2. O que é valvopatia e quais são os principais tipos
A valvopatia é definida como qualquer alteração estrutural ou funcional que comprometa o correto funcionamento de uma ou mais válvulas do coração. Existem dois mecanismos fundamentais pelos quais uma válvula pode ser acometida: a estenose, na qual a abertura da válvula fica reduzida e o sangue encontra resistência para passar, e a insuficiência (ou regurgitação), na qual a válvula não fecha adequadamente e permite o refluxo de sangue na direção oposta.
A valvopatia mais prevalente nos países de alta renda é a estenose aórtica degenerativa, associada ao envelhecimento e à calcificação progressiva da válvula. Em segundo lugar em impacto global está a insuficiência mitral. No Brasil, como aponta a Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) de 2020, encontramos um padrão bimodal: pacientes idosos com valvopatia aórtica degenerativa e adultos mais jovens com valvopatia reumática, fruto de sequelas da febre reumática, condição ainda prevalente no país.
Um estudo publicado no Journal of Clinical Medicine em 2023, que analisou o peso global da valvopatia, confirmou que a doença reumática continua sendo a principal causa de valvopatia em países de renda média e baixa, enquanto a etiologia degenerativa predomina em nações mais desenvolvidas. O reconhecimento do tipo de valvopatia é fundamental para orientar a conduta clínica e o momento ideal de intervenção.
3. Causas e fatores de risco para o desenvolvimento de valvopatia
As causas da valvopatia variam conforme a faixa etária e o contexto socioeconômico do paciente. Nos pacientes mais jovens, predominam a febre reumática — sequela de infecção faríngea pelo estreptococo do grupo A não tratada adequadamente — e as malformações congênitas, como a válvula aórtica bicúspide, que está presente em cerca de 0,5 a 2% da população geral e predispõe ao desenvolvimento precoce de estenose ou insuficiência aórtica.
Nos pacientes acima dos 65 anos, a principal causa de valvopatia é a degeneração calcífica, cujos fatores de risco se sobrepõem aos da aterosclerose: hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes mellitus, tabagismo e sedentarismo. Segundo a Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias da SBC (2020), a causa mais comum de estenose aórtica atualmente é a calcificação e degeneração senil, condição cuja prevalência cresce na medida em que a população brasileira envelhece.
Outras causas importantes de valvopatia incluem a endocardite infecciosa, que pode destruir tecido valvar em questão de dias, o prolapso da válvula mitral — segunda causa mais frequente de insuficiência mitral no Brasil —, além de doenças do tecido conjuntivo, como a síndrome de Marfan, e sequelas de infarto do miocárdio que comprometem os músculos papilares responsáveis por sustentar a válvula mitral. Identificar a causa exata da valvopatia é fundamental para planejar o tratamento adequado.
4. Sintomas da valvopatia: quando o corpo envia sinais de alerta
Um dos aspectos mais desafiadores da valvopatia é que, na fase inicial, a doença frequentemente não provoca nenhum sintoma. O coração compensa as alterações hemodinâmicas por meio de mecanismos adaptativos, como a dilatação e a hipertrofia das câmaras cardíacas. Esse período de compensação pode durar anos ou décadas, fazendo com que o paciente se sinta aparentemente saudável enquanto a doença avança.
Quando os sintomas da valvopatia se manifestam, os mais comuns incluem dispneia aos esforços (falta de ar ao subir escadas ou caminhar), cansaço excessivo, palpitações, edema (inchaço) nos tornozelos e pernas, e síncope (desmaio) ou pré-síncope aos esforços — este último particularmente preocupante na estenose aórtica grave. A angina de peito também pode surgir na estenose aórtica importante mesmo na ausência de doença coronariana obstrutiva.
Segundo a Diretriz ESC/EACTS de 2025 para o manejo da valvopatia, o início dos sintomas em pacientes com estenose aórtica grave está associado a um prognóstico consideravelmente pior, com risco de morte em curto prazo se a intervenção não for realizada. Esse fato evidencia por que a identificação da valvopatia não pode aguardar o aparecimento de sintomas: o acompanhamento cardiológico periódico é a única estratégia confiável para detectar a doença antes que ela cause danos irreversíveis ao coração.
5. Como é feito o diagnóstico da valvopatia
O diagnóstico da valvopatia começa pela consulta cardiológica. Durante o exame clínico, o médico realiza a ausculta cardíaca, que pode revelar sopros — sons anormais produzidos pelo fluxo turbulento de sangue através de uma válvula comprometida. O tipo, a intensidade, a localização e a irradiação do sopro fornecem informações valiosas sobre qual válvula está acometida e qual é o mecanismo da lesão. Por exemplo, a valvopatia aórtica estenótica produz um sopro sistólico de ejeção audível com máxima intensidade no segundo espaço intercostal direito, conforme descrito em revisão publicada nos anais do PubMed em 2022.
Contudo, a ausculta tem limitações: nem toda valvopatia produz sopros audíveis, e nem todo sopro indica doença valvar significativa. Por isso, a suspeita clínica deve sempre ser complementada por exames específicos. A anamnese detalhada — investigando histórico de febre reumática, infecções dentárias ou urológicas, malformações cardíacas congênitas e uso de certos medicamentos — é igualmente essencial para orientar o raciocínio diagnóstico.
Segundo a Diretriz ESC/EACTS de 2025, após uma avaliação clínica adequada, o ecocardiograma é a técnica central para confirmar o diagnóstico de valvopatia, avaliar a etiologia, a mecânica, a função e a gravidade da lesão. O diagnóstico preciso da valvopatia depende, portanto, da combinação entre a habilidade semiológica do cardiologista e os recursos tecnológicos disponíveis.
6. Quais exames complementares auxiliam na avaliação
O ecocardiograma transtorácico é o exame de referência para o diagnóstico e a estratificação da valvopatia. Ele permite visualizar as válvulas em tempo real, medir gradientes pressóricos, calcular a área valvar, avaliar a função sistólica e diastólica do ventrículo esquerdo e identificar complicações como dilatação de câmaras e hipertensão pulmonar. No Instituto Inject, o ecocardiograma é realizado com equipamento de alta resolução, permitindo uma avaliação completa no mesmo local.
Quando o ecocardiograma transtorácico não oferece imagens de qualidade suficiente ou quando o caso exige maior detalhamento anatômico — como no planejamento de intervenções percutâneas —, indica-se o ecocardiograma transesofágico. Segundo a Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias da SBC (2020), o ecocardiograma transesofágico e o uso de modalidades tridimensionais é especialmente útil em casos complexos de valvopatia mitral.
A Diretriz ESC/EACTS de 2025 enfatizou que modalidades de imagem avançadas — como a ecocardiografia tridimensional, a tomografia computadorizada cardíaca e a ressonância magnética cardíaca — ganharam importância crescente e tornaram-se centrais na triagem e avaliação de pacientes com valvopatia complexa. Outros exames que contribuem para a avaliação incluem o eletrocardiograma — para detectar arritmias e sobrecargas de câmaras —, a radiografia de tórax — para avaliar cardiomegalia e congestão pulmonar —, e os biomarcadores como o BNP e o NT-proBNP, cujos valores elevados indicam comprometimento hemodinâmico significativo.
7. Opções de tratamento: do acompanhamento clínico à cirurgia
O tratamento da valvopatia depende do tipo de lesão, da válvula acometida, da gravidade anatômica e funcional e da presença ou ausência de sintomas. Em lesões leves a moderadas sem sintomas e sem repercussão hemodinâmica significativa, o tratamento é o acompanhamento clínico periódico com ecocardiograma em intervalos regulares, definidos conforme a progressão esperada para cada tipo de valvopatia.
Quando a valvopatia atinge critérios de gravidade — seja pela intensidade da lesão, seja pelo surgimento de sintomas ou pela deterioração da função ventricular —, indica-se a intervenção sobre a válvula. As opções são a cirurgia convencional (troca ou plastia valvar por cirurgia aberta) e as técnicas percutâneas ou transcateter, que revolucionaram o tratamento especialmente de pacientes idosos e de alto risco cirúrgico. O procedimento de TAVI/TAVR (implante de válvula aórtica por cateter) tornou-se uma alternativa consolidada à troca valvar cirúrgica em múltiplos estratos de risco, conforme reconhecido pela Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias da SBC (2020).
Segundo a Diretriz ESC/EACTS de 2025, a tomada de decisão compartilhada por equipes multidisciplinares — o chamado Heart Team — foi reforçada como fundamental no manejo da valvopatia, especialmente em casos complexos. A escolha entre reparação e substituição valvar deve considerar a durabilidade, o risco trombótico e a qualidade de vida esperada. Quando a reparação é tecnicamente viável, ela é preferível à substituição, particularmente na insuficiência mitral, por preservar a função ventricular e reduzir complicações a longo prazo.
8. Vida com valvopatia: controle, prevenção e qualidade de vida
Receber o diagnóstico de valvopatia não significa necessariamente uma limitação imediata na qualidade de vida. Pacientes com valvopatia leve e compensada, sob acompanhamento regular, podem manter uma vida plena, com atividade física adaptada e rotina praticamente normal. O fundamental é que o acompanhamento cardiológico seja sistemático, com revisão periódica dos exames e da sintomatologia, para que qualquer progressão da valvopatia seja detectada no momento certo para a intervenção.
Em pacientes com valvopatia reumática ou com próteses valvares mecânicas, o uso de anticoagulantes orais é necessário para prevenir eventos tromboembólicos. Nesses casos, o controle rigoroso do INR e a adesão ao tratamento medicamentoso são indispensáveis. Para pacientes com valvopatia de origem reumática, a profilaxia secundária com penicilina — para prevenir novos surtos de febre reumática — permanece indicada conforme as diretrizes da SBC.
Um estudo publicado no Journal of the American Heart Association em 2024 analisou o peso global da valvopatia entre 1990 e 2021 e constatou que a detecção precoce por ecocardiografia e o seguimento estruturado reduziram significativamente a morbimortalidade associada. A prevenção dos fatores de risco cardiovasculares tradicionais — controle da pressão arterial, do colesterol, do tabagismo e do sedentarismo — também exerce papel protetor sobre a progressão da valvopatia degenerativa, tornando a medicina preventiva um aliado direto no manejo desta condição.
FAQ - Perguntas Frequentes sobre Valvopatia
1. Valvopatia tem cura? Depende do tipo e da causa. A valvopatia degenerativa não tem cura, mas pode ser tratada com intervenção cirúrgica ou percutânea quando atinge gravidade significativa. Lesões leves podem ser controladas por acompanhamento clínico por muitos anos sem necessidade de procedimento invasivo.
2. Sopro no coração sempre significa valvopatia? Não necessariamente. Sopros funcionais ou inocentes são comuns, especialmente em crianças e adolescentes, e não indicam doença estrutural. Contudo, quando um sopro é detectado, o ecocardiograma é essencial para afastar uma valvopatia significativa e garantir segurança ao paciente.
3. Quem tem valvopatia pode fazer exercício físico? Na maioria dos casos de valvopatia leve a moderada compensada, a atividade física adaptada é permitida e até benéfica. Pacientes com valvopatia grave ou sintomática devem ter a prática de exercícios avaliada individualmente pelo cardiologista antes de qualquer atividade de maior intensidade.
4. Como saber se a minha valvopatia está piorando? O acompanhamento periódico com ecocardiograma é a forma mais confiável de monitorar a progressão da valvopatia. O surgimento ou a piora de sintomas como falta de ar, cansaço, palpitações ou inchaço nas pernas deve ser comunicado imediatamente ao cardiologista, pois pode indicar descompensação.
5. A valvopatia pode causar insuficiência cardíaca? Sim. A valvopatia grave não tratada sobrecarrega progressivamente as câmaras cardíacas, levando à dilatação, à disfunção ventricular e, eventualmente, à insuficiência cardíaca. Por isso, as diretrizes internacionais recomendam intervenção antes que o ventrículo atinja um grau irreversível de comprometimento funcional.
Conclusão
Chegamos ao fim de mais um conteúdo desenvolvido pelo Instituto Inject. Neste blog post abordamos: o que são as válvulas do coração e qual é a sua função; o que é valvopatia e quais são os principais tipos; causas e fatores de risco para a valvopatia; os sintomas de alerta; como é feito o diagnóstico da valvopatia; os exames complementares disponíveis; as opções de tratamento, do acompanhamento clínico à cirurgia; e como é possível ter qualidade de vida convivendo com a valvopatia.
A valvopatia é uma condição prevalente, subestimada e frequentemente silenciosa. O ecocardiograma, disponível no Instituto Inject em Marília-SP, é o exame que permite identificá-la e acompanhá-la com precisão. O diagnóstico precoce é, ainda hoje, a melhor estratégia para preservar a função cardíaca e postergar — ou mesmo evitar — procedimentos mais complexos.
Agende sua Consulta
Se você tem histórico de febre reumática, sopro cardíaco diagnosticado na infância, fatores de risco cardiovasculares ou simplesmente quer saber se o seu coração está funcionando bem, uma avaliação cardiológica completa pode fazer toda a diferença.
No Instituto Inject, em Marília-SP, o Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo realiza consulta, ecocardiograma e demais exames no mesmo local, com laudo técnico individualizado. Entre em contato pelo WhatsApp (14) 99884-1112 e agende sua avaliação. Cuidar do coração não precisa ser complicado — basta dar o primeiro passo.
Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo CRM SP 195033 | RQE 70601-70602/1 Médico Cardiologista | PhD pela USP
Referências Bibliográficas
Vahanian A, Beyersdorf F, Praz F, et al. 2021 ESC/EACTS Guidelines for the management of valvular heart disease. European Heart Journal. 2022;43(7):561–632. DOI: 10.1093/eurheartj/ehab395
Vahanian A, Beyersdorf F, et al. 2025 ESC/EACTS Guidelines for the management of valvular heart disease. European Heart Journal. 2025;46(44):4635–4731. DOI: 10.1093/eurheartj/ehaf507
Tarasoutchi F, Montera MW, Ramos AO, et al. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias — 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2020;115(4):720–775. DOI: 10.36660/abc.20201047
Santangelo G, Bursi F, Faggiano A, et al. The Global Burden of Valvular Heart Disease: From Clinical Epidemiology to Management. Journal of Clinical Medicine. 2023;12(6):2178. DOI: 10.3390/jcm12062178
Mensah GA, Fuster V, Murray CJL, Roth GA. Global Burden of Cardiovascular Diseases and Risks, 1990–2022. Journal of the American College of Cardiology. 2023;82(25):2350–2473. DOI: 10.1016/j.jacc.2023.11.007
Yadgir S, Johnson CO, Aboyans V, et al. Global, Regional, and National Burden of Calcific Aortic Valve and Degenerative Mitral Valve Diseases, 1990–2017. Circulation. 2020;141(21):1670–1680. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.119.043391
Tarasoutchi F, Montera MW, Grinberg M, et al. Diretriz Brasileira de Valvopatias — SBC 2011 / I Diretriz Interamericana de Valvopatias — SIAC 2011. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2011;97(5 Supl.1):1–67.