Introdução

A prateleira de suplementos "para o coração" nas farmácias cresceu exponencialmente na última década — e as promessas são generosas: ômega-3 que previne infarto, magnésio que regula o ritmo cardíaco, CoQ10 que fortalece o músculo do coração. Mas o que a ciência realmente diz sobre cada um desses suplementos? Quais têm evidências robustas? Quais funcionam apenas em situações específicas? E quais são, na melhor das hipóteses, promessas sem lastro clínico consistente? No Instituto Inject, em Marília-SP, o Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo responde a essas perguntas com frequência crescente — e a resposta exige que a ciência seja lida com cuidado, separando o que os grandes ensaios clínicos randomizados realmente demonstraram do que a indústria de suplementos prefere que você acredite.

Veja a seguir os tópicos que serão abordados neste blog post: Suplementos e Coração: Ômega-3, Magnésio e CoQ10 Funcionam?

  1. Por que a questão dos suplementos cardiovasculares é mais complexa do que parece
  2. Ômega-3: o que os grandes estudos realmente demonstraram
  3. Ômega-3 com EPA puro versus EPA + DHA: uma diferença que muda tudo
  4. Magnésio e o coração: onde a evidência é sólida e onde ainda é frágil
  5. CoQ10: o suplemento mais promissor para insuficiência cardíaca
  6. CoQ10 e dor muscular por estatina: o que a metanálise mais recente diz
  7. Outros suplementos frequentemente mencionados: vitamina D, berberina e coenzimas
  8. O que o cardiologista avalia antes de indicar — ou contraindicar — um suplemento

A diferença entre um suplemento com evidência clínica real e um produto de marketing sofisticado pode ser a diferença entre um investimento em saúde e uma despesa sem retorno — ou até um risco não previsto. Entenda o que a ciência diz sobre os três suplementos cardiovasculares mais populares antes de decidir o que tomar.

 

1. Por que a questão dos suplementos cardiovasculares é mais complexa do que parece

A avaliação científica de suplementos para a saúde cardiovascular enfrenta desafios metodológicos que não se aplicam da mesma forma à avaliação de medicamentos. Vitaminas, ácidos graxos e coenzimas não são sintetizados em uma única fórmula padronizada: a composição, a pureza, a dose e a biodisponibilidade variam enormemente entre produtos comerciais, e essa variabilidade impacta diretamente os resultados dos estudos clínicos.

Outro fator crítico é o contexto clínico da suplementação. Um suplemento pode beneficiar pacientes com deficiência comprovada do nutriente em questão sem produzir qualquer efeito mensurável em indivíduos com níveis adequados. Isso significa que estudos populacionais conduzidos em pessoas sem deficiência estabelecida frequentemente mostram resultados neutros — o que não necessariamente invalida o suplemento para o grupo com carência identificada.

Finalmente, há o fenômeno da confusão entre associação e causalidade na literatura sobre suplementos. Pessoas que tomam ômega-3, magnésio ou CoQ10 frequentemente também apresentam outros comportamentos de saúde mais favoráveis — alimentação mais saudável, maior atividade física, maior adesão a consultas médicas. Isso torna difícil isolar o efeito específico do suplemento em estudos observacionais. É justamente por isso que os ensaios clínicos randomizados e controlados — nos quais os participantes são alocados aleatoriamente para receber o suplemento ou placebo, com eliminação desses vieses — representam o padrão-ouro de avaliação, e é neles que a análise a seguir se concentra.

 

2. Ômega-3: o que os grandes estudos realmente demonstraram

Os ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa — especificamente o EPA (ácido eicosapentaenoico) e o DHA (ácido docosa-hexaenoico), presentes no óleo de peixe — foram os suplementos cardiovasculares mais estudados nas últimas três décadas. O problema é que a literatura científica sobre ômega-3 e desfechos cardiovasculares é repleta de contradições aparentes que precisam ser cuidadosamente desembaraçadas.

Os ensaios clínicos randomizados de grande porte que testaram suplementos de ômega-3 em formulações combinadas de EPA + DHA — incluindo os estudos ASCEND (em diabéticos), VITAL (em prevenção primária) e STRENGTH (em pacientes de alto risco cardiovascular) — não encontraram redução significativa nos desfechos cardiovasculares primários quando comparados ao placebo. O VITAL, publicado no New England Journal of Medicine em 2019, randomizou 25.871 participantes para receber ômega-3 (1 g/dia de EPA + DHA) ou placebo, e não observou redução significativa no desfecho composto de infarto, AVC ou morte cardiovascular.

O estudo STRENGTH, publicado no JAMA em 2020, testou uma formulação de carboxilato de EPA + DHA em alta dose (4 g/dia) versus óleo de milho em mais de 13.000 pacientes de alto risco cardiovascular em uso de estatina — e também não demonstrou redução de eventos cardiovasculares maiores.

Segundo metanálise sistemática publicada no PMC em 2021, que analisou múltiplos ensaios clínicos randomizados sobre ômega-3 e desfechos cardiovasculares, os estudos que usaram formulações combinadas de EPA + DHA rotineiramente falharam em demonstrar benefício cardiovascular consistente na prevenção primária e secundária.

 

3. Ômega-3 com EPA puro versus EPA + DHA: uma diferença que muda tudo

Se os suplementos convencionais de ômega-3 com EPA + DHA mostraram resultados neutros, por que o ômega-3 ainda aparece nas diretrizes cardiovasculares? A resposta está em uma distinção farmacológica crucial: a diferença entre EPA isolado em alta dose e as formulações combinadas de EPA + DHA.

O estudo REDUCE-IT (Reduction of Cardiovascular Events with Icosapent Ethyl Intervention Trial), publicado no New England Journal of Medicine em 2018 e seguido por análises adicionais, foi um divisor de águas. O ensaio randomizou mais de 8.000 pacientes com doença cardiovascular estabelecida ou diabetes de alto risco, todos em uso de estatina, para receber icosapent etil — um éster etílico altamente purificado de EPA, sem DHA — em dose de 4 g/dia, versus óleo mineral (placebo). O resultado foi uma redução de 25% no risco relativo do desfecho composto primário (morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC não fatal, revascularização coronariana ou angina instável), com uma redução absoluta de 4,8% — o que, em termos clínicos, é expressivo.

Com base no REDUCE-IT, as Diretrizes ESC/EAS de 2019 para Manejo das Dislipidemias passaram a recomendar o uso de icosapent etil 4 g/dia em pacientes com doença cardiovascular estabelecida e triglicerídeos entre 135 e 499 mg/dL apesar de tratamento com estatina. A Diretriz AHA/ACC de Colesterol de 2018 e o guideline para Doença Coronariana Crônica de 2023 também reconhecem o icosapent etil como opção de redução de risco residual em pacientes selecionados.

Uma ressalva importante: o REDUCE-IT usou óleo mineral como placebo — e pesquisadores levantaram a possibilidade de que o óleo mineral possa ter aumentado artificialmente o risco no grupo controle por elevar os lipídios. Esse debate continua ativo na literatura. O que permanece claro é que suplementos convencionais de óleo de peixe com 1 g/dia de EPA + DHA não têm evidência equivalente, e não devem ser equiparados ao icosapent etil prescrito em alta dose — são produtos farmacológica e clinicamente distintos.

 

4. Magnésio e o coração: onde a evidência é sólida e onde ainda é frágil

O magnésio é o quarto mineral mais abundante no organismo humano, essencial para mais de 300 reações enzimáticas — incluindo a produção de ATP (energia celular), a regulação dos canais iônicos cardíacos e a manutenção do potencial de membrana dos cardiomiócitos. Sua deficiência, frequentemente subdiagnosticada, tem implicações cardiovasculares bem documentadas.

A evidência mais robusta para o magnésio no contexto cardiovascular é na correção de hipomagnesemia — concentração sérica de magnésio abaixo do normal —, que tem associação epidemiológica consistente com arritmias cardíacas (especialmente fibrilação atrial e taquiarritmias ventriculares), hipertensão arterial, doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca e mortalidade cardiovascular. Revisão publicada em Nutrients em dezembro de 2024, com levantamento sistemático de mais de 20 anos de estudos epidemiológicos, ensaios clínicos e metanálises, confirmou relação inversa entre ingestão ou concentração sérica de magnésio e múltiplos desfechos cardiovasculares, incluindo hipertensão, calcificação coronariana, AVC, doença isquêmica do coração, fibrilação atrial, insuficiência cardíaca e mortalidade cardíaca.

No domínio clínico, o magnésio intravenoso tem indicação consolidada e endossada pelas diretrizes ACLS (Advanced Cardiovascular Life Support) para tratamento da torsades de pointes — uma arritmia ventricular grave associada ao prolongamento do intervalo QT. Seu uso é padrão de cuidado nesse contexto específico. Metanálise publicada em 2023 sobre profilaxia de fibrilação atrial com magnésio encontrou benefício do magnésio IV adjuvante no controle de frequência na FA não pós-operatória.

Para a suplementação oral de magnésio, a evidência de benefício cardiovascular é mais heterogênea. Metanálise publicada no PMC em 2025 demonstrou que a suplementação oral de magnésio produz redução modesta, mas estatisticamente significativa, da pressão arterial sistólica e diastólica — com efeito mais pronunciado em indivíduos com deficiência de magnésio ou com hipertensão arterial estabelecida. Estudo publicado no Journal of the American Heart Association demonstrou associação entre uso de suplemento de magnésio e redução do risco de insuficiência cardíaca em pacientes diabéticos. A mensagem clínica mais sólida, portanto, é que a suplementação de magnésio beneficia especialmente quem tem deficiência documentada — e que a reposição alimentar através de fontes ricas como vegetais folhosos escuros, sementes, nozes e leguminosas permanece a estratégia preferencial.

 

5. CoQ10: o suplemento mais promissor para insuficiência cardíaca

A coenzima Q10 (CoQ10, ou ubiquinona) é uma molécula lipossolúvel naturalmente sintetizada pelo organismo que desempenha papel central na cadeia de transporte de elétrons nas mitocôndrias — o compartimento celular responsável pela produção de ATP. Ela também age como antioxidante, neutralizando radicais livres que poderiam danificar as membranas celulares. O coração, por sua altíssima demanda energética, é um dos órgãos com maior concentração de CoQ10 — e essa concentração declina com o envelhecimento e está reduzida em pacientes com insuficiência cardíaca.

O estudo mais importante sobre CoQ10 em insuficiência cardíaca é o Q-SYMBIO (Q-Symptoms, Biomarker status and long-term Outcome in Chronic Heart Failure), publicado no JACC: Heart Failure em 2014 — o primeiro ensaio clínico randomizado com tamanho amostral, dose e duração adequados para avaliar eficácia em desfechos clínicos relevantes. O Q-SYMBIO acompanhou pacientes com insuficiência cardíaca crônica durante dois anos, randomizados para CoQ10 300 mg/dia ou placebo. Os resultados foram expressivos: o grupo CoQ10 apresentou redução de 43% nos eventos cardiovasculares maiores (MACE), redução de 43% na morte cardiovascular e redução de 42% na mortalidade por todas as causas, além de melhora significativa na classificação funcional NYHA.

Metanálise publicada no BMC Cardiovascular Disorders em 2024, que integrou dados de múltiplos ensaios clínicos randomizados sobre CoQ10 em insuficiência cardíaca, confirmou que a suplementação produz melhora estatisticamente significativa na fração de ejeção do ventrículo esquerdo e na capacidade funcional, com perfil de segurança favorável. Revisão publicada no PubMed em 2026, dedicada ao CoQ10 em medicina cardiovascular, concluiu que a evidência do Q-SYMBIO demonstra que a suplementação pode melhorar capacidade funcional, fração de ejeção e reduzir eventos cardiovasculares maiores em insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida — posicionando-o como o suplemento cardiovascular com maior potencial clínico quando existe indicação apropriada.

 

6. CoQ10 e dor muscular por estatina: o que a metanálise mais recente diz

Uma das aplicações mais populares do CoQ10 no contexto cardiovascular é o alívio da mialgia associada ao uso de estatinas (SAMS — Statin-Associated Muscle Symptoms). As estatinas inibem a enzima HMG-CoA redutase, que é também necessária para a síntese endógena de CoQ10. Isso levou à hipótese de que a redução de CoQ10 pelo uso de estatina seria um mecanismo contribuinte para a dor e a fraqueza muscular experimentadas por alguns pacientes.

A questão da eficácia do CoQ10 para SAMS foi diretamente abordada em metanálise sistemática publicada em 2025, que incluiu sete ensaios clínicos randomizados com 389 pacientes tomando estatinas em doses variadas de CoQ10 (100 a 600 mg/dia). Os resultados foram mistos: quatro dos sete estudos mostraram redução significativa dos sintomas musculares com CoQ10; três não encontraram diferença significativa em relação ao placebo. Os autores concluíram que, embora os resultados sejam inconsistentes, há sinais de benefício em subgrupos — especialmente com doses mais altas e em pacientes com SAMS mais intenso.

A posição atual das principais diretrizes de cardiologia — incluindo a Diretriz AHA/ACC de Colesterol — não endossa formalmente a suplementação de CoQ10 para SAMS, por falta de evidência consistente em ensaios clínicos adequadamente controlados. Contudo, dado o perfil de segurança favorável do CoQ10, muitos cardiologistas optam por uma avaliação individualizada — especialmente quando a mialgia está comprometendo a adesão ao tratamento com estatina, que é insubstituível para a prevenção cardiovascular secundária. Em situações nas quais a mialgia leva à interrupção da estatina, a tentativa com CoQ10 pode ser razoável como estratégia adjuvante.

 

7. Outros suplementos frequentemente mencionados: vitamina D, berberina e coenzimas

Além dos três protagonistas deste artigo, outros suplementos aparecem com frequência na conversa sobre saúde cardiovascular — e merecem um comentário baseado nas evidências disponíveis.

Vitamina D: Durante anos, estudos observacionais associaram baixos níveis séricos de vitamina D a maior risco cardiovascular. No entanto, os ensaios clínicos randomizados não confirmaram que a suplementação reduz desfechos cardiovasculares duros. O estudo VITAL, publicado no NEJM em 2019, não encontrou redução significativa em infarto, AVC ou morte cardiovascular com vitamina D3 2.000 UI/dia. A suplementação de vitamina D permanece indicada para prevenção de raquitismo e osteoporose em indivíduos deficientes — mas não como intervenção cardiovascular com evidência estabelecida.

Berberina: Alcaloide de origem vegetal com efeitos hipoglicemiantes, hipolipemiantes e anti-inflamatórios demonstrados em estudos menores, majoritariamente asiáticos. Tem gerado interesse crescente como alternativa ou adjuvante a medicamentos metabólicos, incluindo estatinas e metformina. A evidência em desfechos cardiovasculares duros ainda é limitada, e a qualidade metodológica de muitos estudos disponíveis deixa a desejar. Revisão publicada no Frontiers in Molecular Biosciences em 2025 reconheceu seu potencial mas classificou a evidência como insuficiente para recomendação ampla.

Resveratrol: Polifenol do vinho tinto com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias em estudos pré-clínicos. Em ensaios clínicos humanos, porém, os resultados em desfechos cardiovasculares são consistentemente decepcionantes — e as doses necessárias para replicar efeitos experimentais em animais são impraticáveis em humanos. Não há recomendação de diretrizes cardiovasculares para uso clínico.

 

8. O que o cardiologista avalia antes de indicar — ou contraindicar — um suplemento

A decisão sobre suplementação cardiovascular nunca deve ser tomada de forma autônoma pelo paciente, com base em recomendações de farmácias, nutricionistas sem especialização em cardiologia ou vídeos de redes sociais. Ela deve passar pelo cardiologista — porque os suplementos não são neutros, e sua indicação ou contraindicação depende de variáveis clínicas específicas.

Antes de indicar um suplemento cardiovascular, o Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo avalia: o diagnóstico cardiovascular atual do paciente (insuficiência cardíaca, doença coronariana, hipertensão, dislipidemia, arritmia) — porque cada condição tem um perfil de evidência diferente para cada suplemento; os exames laboratoriais relevantes — dosagem sérica de magnésio, perfil lipídico completo com triglicerídeos, função renal e hepática; o esquema medicamentoso em uso — alguns suplementos interagem com anticoagulantes (ômega-3 em altas doses pode potencializar varfarina), antiarrítmicos e imunossupressores; o risco de falsa segurança — o paciente que substitui uma estatina por CoQ10 acredita estar se protegendo enquanto abandona a única intervenção com evidência robusta de redução de mortalidade cardiovascular; e o custo-benefício individual — suplementos de qualidade farmacêutica têm custo relevante e devem ser avaliados dentro das prioridades de saúde de cada pessoa.

A mensagem central não é que suplementos são inúteis — é que suplementos não substituem medicamentos com indicação formal, nem estilos de vida saudáveis, nem o acompanhamento cardiológico regular. Quando indicados corretamente, para o paciente certo, na dose certa e na formulação certa, alguns deles têm evidência clínica real e podem complementar o tratamento cardiovascular. A chave está na individualização e na base científica.

 

Perguntas Frequentes

1. Posso tomar ômega-3 para proteger o coração sem receita médica? Suplementos convencionais de óleo de peixe com doses de 1 g/dia de EPA + DHA não demonstraram benefício cardiovascular significativo nos grandes ensaios clínicos. O icosapent etil em 4 g/dia — formulação farmacêutica de EPA puro — tem evidência de benefício em pacientes com alto risco cardiovascular e triglicerídeos elevados, mas é medicamento de prescrição com indicação específica. Antes de suplementar ômega-3 para fins cardiovasculares, consulte seu cardiologista.

2. CoQ10 pode substituir a estatina para controle do colesterol? Não. CoQ10 não tem efeito significativo sobre o LDL colesterol e não substitui a estatina na prevenção cardiovascular. As estatinas têm décadas de evidência robusta em redução de mortalidade; o CoQ10 tem papel complementar — especialmente na insuficiência cardíaca e, possivelmente, como coadjuvante para mialgia associada à estatina. Interromper a estatina para usar CoQ10 representa risco cardiovascular real.

3. O magnésio ajuda a controlar a pressão arterial? Metanálises de ensaios clínicos randomizados mostram que a suplementação oral de magnésio produz redução modesta da pressão arterial — com efeito mais evidente em pessoas com deficiência documentada ou hipertensão. Não é um substituto para anti-hipertensivos quando estes são indicados, mas pode ser um complemento útil em pacientes com hipomagnesemia confirmada ou com ingestão alimentar inadequada.

4. Quem toma estatina deve suplementar CoQ10? As diretrizes internacionais não recomendam CoQ10 de rotina para todos os usuários de estatina. A suplementação pode ser considerada individualmente em pacientes que desenvolvem mialgia intensa com estatina, especialmente quando os sintomas comprometem a adesão ao tratamento. A decisão deve ser tomada com o cardiologista, avaliando alternativas como troca de estatina, redução de dose ou outros agentes hipolipemiantes.

5. Existe algum suplemento cardiovascular com recomendação formal das diretrizes? Sim — o icosapent etil (EPA puro em 4 g/dia) tem recomendação nas Diretrizes ESC/EAS de Dislipidemias e no guideline de Doença Coronariana Crônica AHA/ACC 2023 para pacientes com doença cardiovascular estabelecida, triglicerídeos elevados (135–499 mg/dL) e em uso de estatina. É, porém, um medicamento prescrito — não um suplemento de farmácia. Os demais suplementos (ômega-3 convencional, magnésio, CoQ10) têm indicações clínicas contextuais, sem recomendação universal de rotina.

 

Conclusão

Chegamos ao fim de mais um conteúdo desenvolvido pelo Instituto Inject. Neste blog post abordamos: por que a avaliação de suplementos cardiovasculares é metodologicamente desafiadora; o que os grandes ensaios clínicos randomizados — VITAL, STRENGTH, ASCEND e REDUCE-IT — revelaram sobre o ômega-3; a distinção crucial entre EPA puro em alta dose (icosapent etil) e formulações convencionais de EPA + DHA; onde a evidência do magnésio é sólida (hipomagnesemia, arritmias, pressão arterial) e onde ainda é frágil; o CoQ10 como o suplemento cardiovascular com a evidência mais promissora — especialmente no Q-SYMBIO para insuficiência cardíaca; a análise da metanálise de 2025 sobre CoQ10 para mialgia por estatina; outros suplementos frequentemente mencionados; e o que o cardiologista avalia antes de indicar qualquer suplementação cardiovascular.

A ciência sobre suplementos cardiovasculares é rica, complexa e frequentemente mal interpretada — pelo marketing, pelas redes sociais e, às vezes, pelos próprios pacientes e profissionais de saúde. O caminho mais seguro é sempre a consulta cardiológica baseada em evidências.

 

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Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo CRM SP 195033 | RQE 70601-70602/1 Médico Cardiologista | PhD pela USP

 

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Publicado em 24/07/2026