Introdução
Durante décadas, o repouso absoluto foi a prescrição padrão para quem vivia com insuficiência cardíaca. Hoje, as diretrizes mais recentes inverteram esse paradigma com uma clareza que surpreende até pacientes bem informados: o exercício físico supervisionado é formalmente recomendado como tratamento não farmacológico de primeira linha na insuficiência cardíaca estável. No Instituto Inject, em Marília-SP, o Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo orienta cada paciente individualmente, porque a resposta certa não é "pode" ou "não pode" — é "como, quando e quanto".
Veja a seguir os tópicos que serão abordados neste blog post: Insuficiência Cardíaca Permite Exercício? A Diretriz Diz
- O que é insuficiência cardíaca e por que ela limita o exercício
- O exercício era proibido antes — o que mudou na ciência
- O que as diretrizes atuais recomendam para quem tem insuficiência cardíaca
- Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (HFrEF): como treinar
- Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (HFpEF): evidências mais recentes
- Quais modalidades de exercício são indicadas e como são prescritas
- Quando o exercício é contraindicado na insuficiência cardíaca
- Reabilitação cardíaca: o modelo estruturado que transforma prognóstico
A insuficiência cardíaca é uma das condições cardiovasculares mais prevalentes e temidas, mas o medo de se movimentar pode ser tão prejudicial quanto a própria doença. Se você ou alguém próximo convive com insuficiência cardíaca e quer entender o que a ciência recomenda sobre exercício físico, este artigo foi escrito para você.
1. O que é insuficiência cardíaca e por que ela limita o exercício
A insuficiência cardíaca é uma síndrome clínica complexa na qual o coração perde a capacidade de bombear sangue de forma adequada para suprir as demandas metabólicas do organismo — seja em repouso, seja sob esforço. Essa disfunção pode decorrer de múltiplas causas: doença coronariana, hipertensão arterial crônica, valvopatias, cardiomiopatias, diabetes mal controlado, entre outras. O resultado é uma cascata de adaptações hemodinâmicas e neuro-hormonais que, se não tratadas, levam à progressiva deterioração funcional.
A limitação ao exercício físico na insuficiência cardíaca resulta de mecanismos tanto centrais quanto periféricos. Do ponto de vista central, o coração comprometido não consegue aumentar suficientemente o débito cardíaco durante o esforço, gerando dispneia e fadiga precoce. Do ponto de vista periférico, há rarefação capilar muscular, atrofia das fibras de tipo I (oxidativas), disfunção endotelial e alterações do metabolismo mitocondrial nas células musculares esqueléticas.
Segundo a Diretriz de Atualização Focada da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) de 2023 para diagnóstico e tratamento da insuficiência cardíaca aguda e crônica, a insuficiência cardíaca é classificada conforme a fração de ejeção do ventrículo esquerdo em três subtipos: com fração de ejeção reduzida (HFrEF, FEVE abaixo de 40%), com fração de ejeção levemente reduzida (HFmrEF, FEVE entre 40% e 49%) e com fração de ejeção preservada (HFpEF, FEVE igual ou superior a 50%). Essa classificação tem implicações diretas no tipo de resposta esperada ao exercício físico.
2. O exercício era proibido antes — o que mudou na ciência
Por muito tempo, a prescrição de repouso para pacientes com insuficiência cardíaca baseava-se em uma premissa razoável mas incorreta: qualquer aumento na demanda cardíaca seria prejudicial a um coração já fragilizado. Esse paradigma perdurou até que as evidências começaram a demonstrar o oposto — que a inatividade física acelerava a perda de massa muscular, piorava a disfunção autonômica, aumentava a resistência vascular periférica e deteriorava a qualidade de vida de forma independente da doença cardíaca em si.
O ponto de inflexão mais significativo na literatura foi o estudo HF-ACTION (Heart Failure: A Controlled Trial Investigating Outcomes of Exercise Training), publicado no JAMA em 2009. Trata-se do maior ensaio clínico randomizado já conduzido para avaliar a eficácia do treinamento físico em pacientes com insuficiência cardíaca. Foram randomizados 2.331 pacientes ambulatoriais clinicamente estáveis com insuficiência cardíaca e fração de ejeção reduzida para treinamento aeróbico supervisionado versus cuidado usual. Após mediana de 30 meses de seguimento, o grupo que realizou exercício apresentou redução estatisticamente significativa no desfecho combinado de mortalidade por todas as causas e hospitalização após ajuste para fatores prognósticos.
Um estudo de análise secundária do HF-ACTION, publicado na revista Circulation, demonstrou ainda que o treinamento físico aeróbico mitigou os efeitos adversos do envelhecimento biológico acelerado sobre a mortalidade em pacientes com insuficiência cardíaca, sugerindo que os benefícios se estendem além dos mecanismos hemodinâmicos convencionais. Essa acumulação de evidências foi determinante para a mudança formal nas recomendações das principais diretrizes cardiovasculares globais.
3. O que as diretrizes atuais recomendam para quem tem insuficiência cardíaca
A recomendação do exercício físico regular para pacientes com insuficiência cardíaca estável possui hoje o mais alto nível de evidência nas principais diretrizes internacionais. A Diretriz ESC/EACTS de 2021 para diagnóstico e tratamento da insuficiência cardíaca aguda e crônica — referendada pela atualização focada de 2023 — confere ao exercício aeróbico recomendação de Classe I, Nível de Evidência A para pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida clinicamente estáveis, com o objetivo de melhorar a capacidade funcional, a qualidade de vida e reduzir hospitalizações.
Nos Estados Unidos, o documento de consenso de especialistas do American College of Cardiology (ACC) de 2024 sobre o tratamento da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida também endossa formalmente o treinamento aeróbico como intervenção recomendada para abordar a capacidade de exercício comprometida. O consenso do ACC de 2023 sobre manejo da insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada segue a mesma direção, reconhecendo o treinamento físico como uma das poucas intervenções não farmacológicas com benefício demonstrado nesse subgrupo.
No Brasil, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida, publicado pelo Ministério da Saúde em setembro de 2024, incorpora o exercício supervisionado como componente essencial do manejo não farmacológico da insuficiência cardíaca. A mensagem das diretrizes, portanto, é inequívoca: manter o paciente com insuficiência cardíaca estável sedentário é uma escolha terapêutica que vai contra a evidência científica disponível.
4. Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (HFrEF): como treinar
O subgrupo de insuficiência cardíaca com maior base de evidências para o exercício é o de fração de ejeção reduzida. Nesses pacientes, o treinamento aeróbico de intensidade moderada — realizado a 50% a 80% do VO₂ pico ou em torno de 60% a 70% da frequência cardíaca máxima — permanece a modalidade de escolha para a maioria dos pacientes, especialmente aqueles em estágios funcionais mais avançados, conforme orientam as diretrizes europeias de reabilitação cardíaca.
O treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT), que alterna períodos de esforço elevado com pausas de recuperação ativa, tem mostrado resultados promissores em melhorar o VO₂ pico — um marcador direto da capacidade cardiorrespiratória e preditor independente de mortalidade — em pacientes com insuficiência cardíaca de menor risco. Segundo revisão publicada na revista Circulation Research em 2025, tanto o treinamento aeróbico contínuo de intensidade moderada quanto o HIIT produzem benefícios mensuráveis em múltiplos sistemas orgânicos: melhora do débito cardíaco de reserva, redução da resistência vascular periférica, melhora da função endotelial e adaptações favoráveis no músculo esquelético.
O treinamento de força muscular aparece como componente complementar valioso, especialmente para combater a sarcopenia — perda de massa e força muscular frequentemente associada à insuficiência cardíaca crônica. Uma revisão sistemática publicada no Heart Failure Reviews em 2024 confirmou que o treinamento resistido é seguro e traz benefícios adicionais em termos de força, capacidade funcional e qualidade de vida em pacientes com insuficiência cardíaca, quando realizado com a supervisão e a progressão adequadas.
5. Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (HFpEF): evidências mais recentes
A insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada representa hoje aproximadamente metade de todos os casos de insuficiência cardíaca, com prevalência estimada em crescimento à medida que a população envelhece. Diferentemente da forma com fração de ejeção reduzida, a HFpEF possui um arsenal farmacológico mais restrito, o que torna o exercício físico ainda mais relevante como intervenção terapêutica.
Um ensaio clínico randomizado multicêntrico publicado na Nature Medicine em janeiro de 2025 avaliou os efeitos do treinamento combinado de endurance e resistência ao longo de 12 meses em 322 pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção preservada — média de idade de 70 anos, sendo 59,6% mulheres. O estudo demonstrou que o treinamento combinado resultou em melhora clínica mensurável em um número significativamente maior de pacientes no grupo de exercício em comparação ao grupo de cuidado usual, embora os desafios de adesão em longo prazo continuem sendo um obstáculo importante.
Uma metanálise publicada no Journal of the American Heart Association, com dados de 2024, reforçou que a reabilitação cardíaca melhora significativamente a qualidade de vida relacionada à saúde em pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção preservada. Uma revisão de 2025 publicada na Heart Failure Reviews concluiu que o treinamento de intensidade moderada contínua melhora de forma consistente o VO₂ pico e o peso dos sintomas, sendo sustentado por uma base de evidências robusta nessa população de insuficiência cardíaca.
6. Quais modalidades de exercício são indicadas e como são prescritas
A prescrição de exercício na insuficiência cardíaca não é genérica — ela deve ser individualizada com base em avaliação clínica completa, teste de capacidade funcional e classificação pela escala da New York Heart Association (NYHA), que estratifica os pacientes de classe I (sem sintomas) a classe IV (sintomas em repouso).
As principais modalidades recomendadas incluem:
Treinamento aeróbico contínuo de intensidade moderada: caminhada, ciclismo ergométrico, natação ou hidroginástica em ritmo controlado. É o padrão-ouro para a maioria dos pacientes com insuficiência cardíaca estável, especialmente em classes funcionais II e III. A duração recomendada é de 20 a 45 minutos por sessão, com frequência de três a cinco vezes por semana.
Treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT): indicado para pacientes com insuficiência cardíaca de menor risco e melhor capacidade funcional, sempre sob supervisão especializada. Envolve alternância entre esforços de maior intensidade (85% a 95% do VO₂ pico) e recuperação ativa.
Treinamento resistido: realizado com cargas progressivas em circuito ou em aparelhos, com ênfase em grandes grupos musculares. É especialmente útil para reverter a sarcopenia associada à insuficiência cardíaca e melhorar a capacidade funcional nas atividades da vida diária.
Treinamento muscular inspiratório: exercícios específicos para os músculos respiratórios, com uso de dispositivos calibrados. Tem evidência crescente como componente adicional, especialmente em pacientes com dispneia mais pronunciada.
Segundo a revisão publicada na Circulation Research em 2025, a avaliação objetiva da capacidade funcional máxima por teste cardiopulmonar de exercício (ergoespirometria) é a precondição ideal para a determinação individualizada das intensidades de treinamento recomendadas em pacientes com insuficiência cardíaca.
7. Quando o exercício é contraindicado na insuficiência cardíaca
A recomendação categórica do exercício para pacientes com insuficiência cardíaca tem uma condição fundamental: estabilidade clínica. Existem situações em que o exercício físico representa risco real e deve ser suspenso ou postergado até nova avaliação cardiológica.
As principais contraindicações ao exercício na insuficiência cardíaca incluem: insuficiência cardíaca descompensada aguda com sinais de congestão pulmonar ou baixo débito (dispneia em repouso, ortopneia, edema progressivo, necessidade de vasodilatadores intravenosos); piora recente dos sintomas habituais com deterioração funcional em período inferior a cinco dias; arritmias ventriculares graves não controladas ou arritmias supraventriculares com resposta ventricular não controlada; bloqueio atrioventricular de alto grau sem marcapasso; hipotensão sintomática; pericardite ou miocardite ativas; estenose aórtica grave ainda não tratada; e tromboembolismo recente.
Pacientes com insuficiência cardíaca que apresentam febre, infecção ativa ou deterioração de exames laboratoriais (piora da função renal, elevação de biomarcadores como BNP e NT-proBNP) também devem interromper o exercício e buscar avaliação médica. Segundo a Diretriz ESC 2021 para insuficiência cardíaca, a supervisão adequada — especialmente nas primeiras semanas do programa — é indispensável para a segurança do treinamento, com monitoramento da frequência cardíaca, pressão arterial e sintomas durante e após cada sessão.
8. Reabilitação cardíaca: o modelo estruturado que transforma prognóstico
A reabilitação cardíaca representa o modelo mais completo de intervenção baseada em exercício para pacientes com insuficiência cardíaca. Ela combina o treinamento físico supervisionado com educação em saúde, suporte psicossocial, otimização farmacológica e estratificação de risco contínua — formando um programa multiprofissional que vai muito além da atividade física isolada.
Estudos observacionais e ensaios clínicos consistentemente demonstram que pacientes com insuficiência cardíaca que participam de programas estruturados de reabilitação cardíaca apresentam melhora na capacidade funcional medida pelo VO₂ pico, redução das hospitalizações por insuficiência cardíaca, melhora na qualidade de vida, menor sintomatologia e, em alguns estudos, redução na mortalidade cardiovascular quando comparados a pacientes em cuidado usual.
A avaliação inicial para ingresso em um programa de reabilitação cardíaca inclui, necessariamente, um ecocardiograma para determinação da fração de ejeção e da função valvar, um eletrocardiograma, e idealmente uma ergoespirometria para determinação direta do VO₂ pico — exame disponível no Instituto Inject. Esses dados permitem ao Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo estratificar o risco do paciente, estabelecer metas funcionais realistas e prescrever o exercício com a precisão que cada caso exige. Na insuficiência cardíaca, como em toda a cardiologia de alta precisão, a individualização não é um luxo — é um imperativo clínico.
FAQ - Perguntas Frequentes
1. Quem tem insuficiência cardíaca pode caminhar todos os dias? Sim, na grande maioria dos casos de insuficiência cardíaca estável. A caminhada em ritmo moderado é uma das formas mais seguras e eficazes de manter a capacidade funcional. O ritmo, a duração e a frequência devem ser ajustados pelo cardiologista conforme a classe funcional e a resposta individual ao esforço.
2. Exercício piora a insuficiência cardíaca? Quando bem indicado e supervisionado, o exercício não piora a insuficiência cardíaca — ao contrário, melhora a capacidade funcional, reduz hospitalizações e eleva a qualidade de vida. O risco ocorre quando o paciente está descompensado ou quando o exercício é iniciado sem avaliação cardiológica adequada.
3. Academia e musculação são permitidas para quem tem insuficiência cardíaca? O treinamento resistido, realizado com progressão adequada e supervisão, é seguro e recomendado como complemento ao exercício aeróbico na insuficiência cardíaca estável. Cargas muito elevadas com manobra de Valsalva devem ser evitadas. A liberação deve ser individualizada pelo cardiologista após avaliação funcional.
4. Qual é o melhor exercício para insuficiência cardíaca? Não existe um único exercício ideal — a prescrição é individualizada. O treinamento aeróbico de intensidade moderada, como caminhada e ciclismo ergométrico, é o mais estudado e recomendado. O treinamento resistido complementa os benefícios. A combinação supervisionada dessas modalidades produz os melhores resultados documentados.
5. Como saber se minha insuficiência cardíaca está estável o suficiente para praticar exercício? A estabilidade clínica é avaliada pelo cardiologista com base em sintomas, exame físico, pressão arterial, biomarcadores (BNP/NT-proBNP) e ecocardiograma recente. Pacientes sem sinais de congestão, sem piora dos sintomas nas últimas semanas e com medicação otimizada geralmente têm condições de iniciar um programa gradual de exercícios.
Conclusão
Chegamos ao fim de mais um conteúdo desenvolvido pelo Instituto Inject. Neste blog post abordamos: o que é insuficiência cardíaca e por que ela limita o exercício; como a ciência mudou o paradigma do repouso para o exercício ativo; o que as diretrizes internacionais recomendam; as evidências específicas para os subtipos HFrEF e HFpEF; as modalidades de exercício indicadas e como são prescritas; as contraindicações que precisam ser respeitadas; e o modelo da reabilitação cardíaca estruturada como transformador de prognóstico.
A mensagem central é clara: o exercício físico supervisionado é, hoje, um componente formal do tratamento da insuficiência cardíaca estável — com evidência de Classe I nas principais diretrizes do mundo. Não exercitar um paciente com insuficiência cardíaca estável é, do ponto de vista científico atual, uma omissão terapêutica. O passo seguinte é sempre uma avaliação cardiológica individualizada para definir como, quanto e com que segurança esse exercício deve ser praticado.
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Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo CRM SP 195033 | RQE 70601-70602/1 Médico Cardiologista | PhD pela USP
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