Introdução
A pergunta "posso engravidar se tenho doença cardíaca?" está entre as mais delicadas e importantes que uma mulher em idade reprodutiva pode fazer ao cardiologista. A resposta nunca é simples — e jamais deve ser um "não" automático nem um "sim" despreocupado. Estima-se que entre 1% e 4% de todas as gestações nos países ocidentais sejam complicadas por doença cardiovascular, e as cardiopatias são a principal causa não obstétrica de morte materna no mundo. Ao mesmo tempo, graças ao avanço da cirurgia cardíaca pediátrica, um número crescente de mulheres com cardiopatias congênitas corrigidas na infância chega à idade reprodutiva querendo exercer a maternidade. No Instituto Inject, em Marília-SP, o Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo integra essa discussão com a precisão que ela exige: avaliação individualizada, estratificação objetiva de risco e, sempre que possível, um planejamento cuidadoso antes da concepção.
Veja a seguir os tópicos que serão abordados neste blog post: Doença Cardíaca e Gravidez: Riscos, Cuidados e Planejamento
- Por que a gravidez representa um desafio para o coração doente
- A classificação de risco mWHO: a ferramenta central para o planejamento
- Quais doenças cardíacas têm maior e menor risco na gravidez
- A avaliação pré-concepcional: o que fazer antes de tentar engravidar
- Acompanhamento durante a gestação: frequência, exames e equipe
- O parto em mulheres com cardiopatia: via, momento e cuidados
- Cardiomiopatia periparto: quando a gravidez causa doença cardíaca nova
- Contracepção, anticoagulação e amamentação: questões práticas essenciais
A doença cardíaca não cancela o desejo de maternidade — mas exige que esse desejo seja acompanhado por um planejamento médico rigoroso. Entender os riscos, a classificação das cardiopatias e o que precisa ser avaliado antes de tentar engravidar pode ser a diferença entre uma gestação bem-sucedida e uma complicação grave.
1. Por que a gravidez representa um desafio para o coração doente
A gravidez impõe ao organismo materno uma das maiores sobrecargas cardiovasculares que um ser humano pode experimentar fisiologicamente. Essas mudanças são normais e essenciais para o desenvolvimento fetal — mas em mulheres com cardiopatia preexistente, podem ser o gatilho para descompensação grave.
As principais adaptações cardiovasculares da gravidez incluem: aumento de 30% a 50% no volume sanguíneo circulante, com pico entre a 28ª e a 34ª semana de gestação; aumento de 30% a 40% no débito cardíaco (o volume de sangue bombeado pelo coração por minuto), resultado da combinação entre maior volume de ejeção e maior frequência cardíaca; queda da resistência vascular periférica e da pressão arterial, especialmente no primeiro e segundo trimestres; e estado de hipercoagulabilidade — aumento dos fatores de coagulação e redução da fibrinólise —, que eleva o risco de trombose venosa e embolia pulmonar. Além disso, o parto em si representa um pico hemodinâmico adicional, com aumento do retorno venoso pela contração uterina, e o puerpério imediato traz novo desafio com a redistribuição de volume após a saída da placenta.
Revisão publicada no PMC em 2025 sobre fisiopatologia e desfechos materno-fetais em gestantes com doença cardiovascular confirma que a gravidez funciona como um verdadeiro teste de estresse cardiovascular — capaz de descompensar cardiopatias previamente compensadas, de revelar disfunções subclínicas que nunca haviam se manifestado e de criar complicações de novo em mulheres sem diagnóstico cardíaco prévio. Para um coração saudável, essas adaptações são bem toleradas. Para um coração doente, podem representar risco de vida.
2. A classificação de risco mWHO: a ferramenta central para o planejamento
A tomada de decisão sobre gravidez em mulheres com cardiopatia não pode ser baseada em intuição ou em regras gerais — ela exige uma ferramenta objetiva de estratificação de risco. A classificação mundialmente adotada para esse fim é a classificação modificada da Organização Mundial da Saúde de risco cardiovascular materno, conhecida como mWHO.
A mWHO estratifica as cardiopatias em quatro categorias de risco crescente, com base na probabilidade de complicações cardíacas maternas durante a gravidez:
mWHO I — Risco baixo: inclui defeitos pequenos de septo sem repercussão hemodinâmica, prolapso de válvula mitral sem regurgitação significativa e extrassístoles não complicadas. O risco de complicações cardíacas maternas é mínimo e a gravidez é permitida.
mWHO II — Risco levemente aumentado: inclui defeitos de septo não corrigidos, tetralogia de Fallot corrigida e a maioria das arritmias. A gravidez é permitida, mas requer acompanhamento cardiológico especializado.
mWHO II-III — Risco moderado a elevado: inclui insuficiência mitral ou aórtica moderada, cardiomiopatia hipertrófica e algumas valvopatias mais complexas. Requer acompanhamento em centro especializado com Heart Team.
mWHO III — Risco alto: inclui válvula aórtica mecânica, coarctação de aorta não corrigida, cardiomiopatia periparto prévia com recuperação da função, ventrículo direito sistêmico e síndrome de Fontan sem complicações. A gravidez é possível mas com risco significativo — exige acompanhamento em centro de excelência com equipe multidisciplinar experiente.
mWHO IV — Risco muito alto (gravidez contraindicada): inclui hipertensão arterial pulmonar grave, disfunção ventricular grave (fração de ejeção abaixo de 30% ou classe NYHA III-IV), cardiomiopatia periparto prévia com disfunção residual, estenose aórtica ou mitral grave sintomática, dilatação aórtica grave e síndrome de Ehlers-Danlos vascular. Nessa categoria, a mortalidade materna pode ser substancialmente elevada.
Segundo a Diretriz ESC 2018 para Manejo de Doenças Cardiovasculares na Gravidez, publicada no European Heart Journal, a avaliação de risco pelo mWHO é recomendada para todas as mulheres em idade reprodutiva com cardiopatia, idealmente antes da concepção (Classe I, Nível de Evidência C). A Diretriz ESC 2025 — apresentada no Congresso Europeu de Cardiologia e incorporando nova evidência — atualizou para mWHO 2.0, mantendo a mesma estrutura mas refinando o posicionamento de algumas condições e afastando-se da política rígida de "gravidez proibida" em favor de um modelo centrado na tomada de decisão compartilhada e informada com suporte psicossocial adequado.
3. Quais doenças cardíacas têm maior e menor risco na gravidez
A identificação do diagnóstico cardíaco específico é o ponto de partida da estratificação de risco — porque cardiopatias diferentes se comportam de forma radicalmente distinta diante das sobrecargas hemodinâmicas da gravidez.
As cardiopatias associadas ao menor risco gestacional incluem as cardiopatias congênitas simples corrigidas — comunicação interatrial (CIA) e comunicação interventricular (CIV) pequenas a moderadas, com ou sem correção prévia — e as valvopatias leves sem repercussão hemodinâmica. Em geral, essas mulheres toleram bem a gravidez com acompanhamento especializado e têm prognóstico materno-fetal favorável.
As cardiopatias associadas ao risco moderado incluem a tetralogia de Fallot corrigida, as próteses valvares biológicas, as cardiomiopatias compensadas e algumas arritmias tratadas. Nessas situações, a gravidez é possível com vigilância adequada, mas há risco real de piora funcional e necessidade de internação.
As cardiopatias de alto risco incluem a estenose aórtica grave, a estenose mitral grave (particularmente problemática porque a taquicardia da gravidez reduz o tempo de enchimento ventricular e pode precipitar edema pulmonar agudo), as cardiomiopatias com disfunção sistólica significativa e as valvopatias com hipertensão pulmonar associada.
A condição de maior risco absoluto é a hipertensão arterial pulmonar — especialmente a hipertensão arterial pulmonar idiopática e a associada à síndrome de Eisenmenger —, com mortalidade materna historicamente estimada entre 30% e 50% em séries mais antigas. Mesmo com os avanços recentes no tratamento da HAP com vasodilatadores pulmonares específicos, a ESC 2025 mantém a gravidez como situação de risco muito alto nesse contexto.
O REBECGA (Registro Brasileiro de Cardiopatias na Gravidez), estudo multicêntrico publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia em 2025, identificou que a insuficiência cardíaca foi a principal complicação materna, que o puerpério é o período mais crítico para mortalidade e que classificação mWHO IV, classe NYHA III/IV e hipertensão pulmonar foram os principais preditores de complicações e óbito materno na população brasileira.
4. A avaliação pré-concepcional: o que fazer antes de tentar engravidar
A melhor oportunidade para proteger a mulher com cardiopatia durante a gravidez começa antes da concepção — no consultório cardiológico, idealmente com antecedência de pelo menos seis meses em relação à tentativa de engravidar.
A avaliação pré-concepcional cardiológica completa inclui: anamnese cardiológica detalhada — revisão do diagnóstico de base, histórico de procedimentos cirúrgicos ou intervencionistas, classe funcional atual (NYHA), episódios prévios de descompensação e tolerância ao esforço; eletrocardiograma para avaliação do ritmo cardíaco, intervalos, e sinais de hipertrofia ou isquemia; ecocardiograma transtorácico com avaliação rigorosa da função sistólica e diastólica, das válvulas, das pressões pulmonares e das dimensões das câmaras — esses parâmetros definirão a classificação mWHO e guiarão as decisões subsequentes; teste de capacidade funcional — teste ergométrico ou ergoespirometria — para quantificação objetiva da reserva cardiorrespiratória; e biomarcadores como NT-proBNP e troponina de alta sensibilidade, que fornecem informação prognóstica adicional.
Segundo o Posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia para Gravidez e Planejamento Familiar na Mulher Portadora de Cardiopatia — 2020, publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, a avaliação pré-concepcional deve ser conduzida por equipe multidisciplinar — o chamado Heart Team da gravidez —, que inclui cardiologista com experiência em cardiopatia e gestação, obstetra especializado em gestação de alto risco, e, conforme a condição específica, cirurgião cardíaco e anestesiologista. Essa equipe define a classificação de risco, orienta sobre o momento ideal para tentar engravidar, propõe correções de lesões cardíacas significativas antes da gestação quando tecnicamente possível, e estabelece o plano de acompanhamento e parto.
5. Acompanhamento durante a gestação: frequência, exames e equipe
Uma vez confirmada a gravidez em mulher com cardiopatia, o acompanhamento deixa de ser opcional — ele é imperativo, estruturado e deve ser proporcional ao risco classificado pelo mWHO.
Para gestantes de risco baixo a moderado (mWHO I e II), o acompanhamento cardiológico mensal em centro especializado é geralmente adequado, com ecocardiograma no início da gestação e repetido em torno da 28ª semana — período de pico da expansão volêmica — e no terceiro trimestre.
Para gestantes de risco moderado a alto (mWHO II-III e III), as consultas devem ser quinzenais ou mensais em centro de referência, com ecocardiogramas seriados e vigilância de sintomas de descompensação (dispneia progressiva, edema, palpitações de instalação recente, síncope).
Para gestantes de risco muito alto (mWHO IV) que, excepcionalmente e após extensa discussão com a equipe, optam por prosseguir com a gestação, o acompanhamento em UTI ou unidade de alto risco com monitorização intensiva é necessário, especialmente durante o terceiro trimestre e o puerpério imediato.
O ecocardiograma fetal está indicado para todas as gestantes com cardiopatias congênitas — porque a herdabilidade das cardiopatias congênitas varia de 3% a mais de 50% dependendo da condição de base —, habitualmente realizado entre 18 e 22 semanas de gestação. A monitorização da vitalidade fetal, do crescimento e do líquido amniótico também faz parte do acompanhamento de rotina nessas gestações de alto risco.
6. O parto em mulheres com cardiopatia: via, momento e cuidados
A via e o momento do parto em mulheres com cardiopatia é uma das decisões mais complexas e individualizadas da medicina cardio-obstétrica — e frequentemente é mal compreendida pelas pacientes, que assumem que "ter problema no coração" necessariamente implica cesárea.
A via vaginal é a preferida para a grande maioria das gestantes com cardiopatia, segundo a Diretriz ESC 2018 e a atualização de 2025. O trabalho de parto vaginal bem conduzido, com analgesia peridural adequada (que reduz a dor e, consequentemente, a resposta simpática e o consumo de oxigênio), resulta em menor perda sanguínea, menor risco de infecção e menor variação hemodinâmica do que a cesárea. A segunda fase do trabalho de parto (período expulsivo) é o momento de maior sobrecarga cardiovascular — e a redução desse período com uso criterioso de fórceps ou vácuo pode ser indicada em mulheres com cardiopatia de alto risco para evitar o esforço expulsivo prolongado.
A cesárea tem indicações obstétricas específicas e cardíacas restritas — como anticoagulação com varfarina em uso no momento do parto (risco de sangramento fetal), algumas aortopatias com risco de dissecção durante o esforço e situações de emergência hemodinâmica. A decisão deve ser individualizada e discutida pela equipe multidisciplinar.
O puerpério imediato — especialmente as primeiras 24 a 48 horas após o parto — é o período de maior risco para descompensação cardíaca, porque a redistribuição de volume após a dequitação e a reversão da vasodilatação gestacional podem precipitar edema agudo de pulmão. A monitorização cardíaca intensiva nesse período é essencial, independentemente da via de parto.
7. Cardiomiopatia periparto: quando a gravidez causa doença cardíaca nova
A cardiomiopatia periparto (CMPP) é uma condição específica e potencialmente grave em que a gravidez — em si — causa disfunção sistólica do ventrículo esquerdo em uma mulher previamente saudável do ponto de vista cardíaco. Ela é definida como insuficiência cardíaca com fração de ejeção abaixo de 45%, instalada no último mês de gestação ou nos primeiros meses após o parto, sem outra causa identificável.
A incidência da CMPP varia de 1 em cada 2.000 a 4.000 partos na Europa e na América do Norte, sendo consideravelmente mais frequente em alguns países africanos, onde pode ocorrer em até 1 em cada 300 partos. Os fatores de risco incluem idade materna acima de 30 anos, gemelaridade, hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia, multiparidade e raça negra. Estudo retrospectivo realizado na Escócia e publicado em 2023 encontrou incidência de 1 em cada 4.950 partos, com quase metade das mulheres recuperando a função ventricular em seis meses e 71% em um ano — mas com impacto significativo nos recém-nascidos, incluindo maior taxa de prematuridade e maior prevalência de doença cardiovascular nos filhos de mães com CMPP.
O tratamento da CMPP inclui terapia padrão para insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, adaptada para a segurança fetal quando a CMPP ocorre antes do parto. A bromocriptina — inibidora da prolactina — tem evidência crescente como tratamento específico, porque a prolactina é um dos mecanismos patogênicos propostos para a CMPP. A Diretriz ESC 2018 introduziu a discussão sobre bromocriptina e a atualização de 2025 refinou as recomendações com base em maior experiência acumulada.
Mulheres com CMPP que planejam nova gestação devem saber que o risco de recorrência é real — especialmente naquelas que não recuperaram completamente a função ventricular — e que nova gravidez deve ser desaconselhada enquanto houver disfunção residual.
8. Contracepção, anticoagulação e amamentação: questões práticas essenciais
O cuidado cardiológico de mulheres com cardiopatia em idade reprodutiva não se limita ao período da gestação. A contracepção, a anticoagulação durante a gravidez e as orientações sobre amamentação são questões práticas que demandam atenção específica.
Contracepção: Em mulheres com cardiopatia que não desejam engravidar no momento ou que têm contraindicação à gravidez (mWHO IV), a escolha do método contraceptivo é clinicamente relevante. Contraceptivos orais combinados com estrogênio estão contraindicados em mulheres com hipertensão pulmonar, doença tromboembólica prévia, fibrilação atrial ou síndrome de Eisenmenger, pelo risco trombótico adicional. Contraceptivos apenas com progesterona (pílula de progesterona, dispositivo intrauterino hormonal) ou dispositivos intrauterinos de cobre são opções mais seguras na maioria das cardiopatias. A indicação deve ser individualizada pela equipe cardio-obstétrica.
Anticoagulação durante a gravidez: Mulheres com próteses valvares mecânicas ou fibrilação atrial precisam de anticoagulação durante toda a gestação — e o manejo é especialmente complexo, porque a varfarina (eficaz, mas com risco de embriopatia no primeiro trimestre) e as heparinas de baixo peso molecular (mais seguras para o feto, mas com menor eficácia anticoagulante em próteses mecânicas) têm perfis risco-benefício distintos em diferentes fases da gravidez. Segundo o Posicionamento SBC 2020, a heparina de baixo peso molecular é a opção de escolha para profilaxia e tratamento de tromboembolismo venoso na gravidez, com monitorização semanal da atividade anti-Xa.
Amamentação: A maioria dos medicamentos cardiovasculares pode ser usada com segurança durante a amamentação, mas há exceções importantes. A Diretriz ESC 2018 alerta que antiagregantes plaquetários que não sejam o AAS em baixa dose e alguns antiarrítmicos não são recomendados durante a amamentação. A decisão deve ser individualizada considerando a necessidade do medicamento para a mãe versus o benefício do aleitamento materno para o recém-nascido.
Perguntas Frequentes
1. Toda mulher com doença cardíaca pode engravidar? Não necessariamente. A classificação mWHO divide as cardiopatias em quatro categorias de risco. A maioria das cardiopatias leves a moderadas (mWHO I e II) permite a gravidez com acompanhamento adequado. Condições de risco muito alto — como hipertensão arterial pulmonar grave e disfunção ventricular severa (mWHO IV) — contraindicam a gestação pela elevada mortalidade materna.
2. A avaliação cardiológica antes da gravidez é obrigatória para quem tem problema no coração? É fortemente recomendada pelas diretrizes internacionais e pelo Posicionamento SBC 2020. Idealmente, deve ocorrer seis meses antes da tentativa de concepção, incluindo ecocardiograma, classificação mWHO e planejamento com equipe multidisciplinar. A consulta pré-concepcional pode identificar lesões passíveis de correção antes da gestação, reduzindo substancialmente o risco.
3. Mulher com marca-passo pode engravidar? Na maioria dos casos, sim. Portadoras de marcapasso por bloqueio atrioventricular ou doença do nó sinusal geralmente têm cardiopatia de baixo risco gestacional (mWHO I ou II) e toleram bem a gravidez. O acompanhamento inclui verificação do funcionamento do dispositivo e programação adequada para as demandas cronotrópicas da gestação.
4. O bebê de mãe com cardiopatia congênita tem risco de ter problema no coração? Sim, em graus variáveis dependendo da condição materna. A herdabilidade das cardiopatias congênitas varia de 3% a mais de 50%. Por isso, o ecocardiograma fetal entre 18 e 22 semanas é recomendado para todas as gestantes com cardiopatia congênita, permitindo diagnóstico precoce e planejamento neonatal adequado.
5. Qual é o período mais perigoso da gravidez para quem tem doença cardíaca? Existem dois momentos críticos: o final do segundo trimestre e início do terceiro — quando a expansão volêmica atinge seu pico (28ª a 34ª semana) — e o puerpério imediato (primeiras 24 a 48 horas após o parto), quando a redistribuição de volume pode precipitar descompensação cardíaca aguda. O REBECGA identificou o puerpério como o período com maior concentração de mortalidade materna por doença cardíaca no Brasil.
Conclusão
Chegamos ao fim de mais um conteúdo desenvolvido pelo Instituto Inject. Neste blog post abordamos: por que a gravidez representa uma sobrecarga hemodinâmica significativa para o coração doente; a classificação mWHO como ferramenta central de estratificação do risco materno; quais doenças cardíacas têm maior e menor risco gestacional; o que a avaliação pré-concepcional deve incluir e por que ela é fundamental; como o acompanhamento durante a gestação é estruturado conforme o risco; as diretrizes para a via e o momento do parto; a cardiomiopatia periparto como condição específica da gravidez que pode acometer mulheres previamente saudáveis; e as questões práticas sobre contracepção, anticoagulação e amamentação.
Doença cardíaca e maternidade não são necessariamente incompatíveis. Com planejamento cuidadoso, equipe experiente e acompanhamento rigoroso, muitas mulheres com cardiopatia têm gestações bem-sucedidas. A chave está em não improvisar — e em começar a conversa com o cardiologista antes de tentar engravidar.
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Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo CRM SP 195033 | RQE 70601-70602/1 Médico Cardiologista | PhD pela USP
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