Introdução
A doença arterial coronariana é a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo, e a angina representa seu sinal mais precoce e frequentemente negligenciado. A anamnese minuciosa é essencial, pois a angina é o sintoma inicial em cerca de 50% dos pacientes com doença arterial coronariana crônica. No Instituto Inject, em Marília-SP, o Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo, cardiologista com PhD pela USP, avalia esses sinais com precisão diagnóstica e protocolos baseados nas mais atuais evidências científicas — porque reconhecer a angina no momento certo pode, literalmente, salvar uma vida.
Veja a seguir os tópicos que serão abordados neste blog post: Angina — O Sinal de Alerta Antes do Infarto que Quase Ninguém Reconhece
- O que é angina e por que ela ocorre
- Tipos de angina: estável, instável e vasoespástica
- Como identificar os sintomas da angina
- Angina instável: quando o risco de infarto é imediato
- Como o cardiologista diagnostica a angina
- Tratamento da angina: do medicamento à intervenção
- Fatores de risco e prevenção da angina
- Quando procurar atendimento de emergência
Se você já sentiu um aperto no peito ao subir escadas, um peso no braço esquerdo durante esforço ou uma queimação no meio do tórax que passa rapidamente com o repouso, este conteúdo é para você. A angina é muito mais comum do que se imagina — e entender seus sinais pode ser a diferença entre uma intervenção preventiva e uma emergência cardíaca.
1. O que é angina e por que ela ocorre
A angina pectoris é uma manifestação clínica da doença arterial coronariana (DAC) que ocorre quando o músculo cardíaco recebe menos oxigênio do que necessita para funcionar adequadamente. Esse desequilíbrio entre oferta e demanda de oxigênio no miocárdio gera uma dor ou desconforto característico, que em linguagem médica denominamos isquemia miocárdica. A angina, em sua forma mais típica, é o aviso que o coração emite antes que um dano permanente — o infarto — se instale.
Conceitos atuais ampliaram a compreensão da angina para além das estenoses fixas nas grandes artérias coronárias, reconhecendo que anormalidades estruturais e funcionais tanto na macro quanto na microcirculação coronariana podem levar à isquemia miocárdica transitória. Isso significa que a angina pode ocorrer mesmo em pacientes sem obstrução grave visível ao exame de imagem — uma condição conhecida como disfunção microvascular coronariana.
A principal característica fisiopatológica da síndrome coronariana aguda é a instabilização da placa aterosclerótica, envolvendo erosão ou ruptura e subsequente formação de trombo oclusivo ou suboclusivo. Tal limitação de fluxo, no entanto, pode ocorrer por outros mecanismos como vasospasmo, embolia ou dissecção coronariana. Compreender essa diversidade de mecanismos é fundamental para que o cardiologista escolha a investigação e o tratamento mais adequados para cada paciente com angina.
2. Tipos de angina: estável, instável e vasoespástica
A angina não é uma condição única e uniforme. Ela se apresenta em diferentes formas, cada uma com características, riscos e abordagens clínicas distintas. Conhecer esses tipos é essencial para que o paciente reconheça o próprio quadro e para que o cardiologista defina a estratégia terapêutica correta.
A angina estável é a forma mais clássica: ocorre de maneira previsível durante esforço físico ou emoção intensa, alivia com repouso em poucos minutos e tem padrão regular ao longo do tempo. A angina instável, por sua vez, é uma emergência médica — surge em repouso, aumenta de frequência e intensidade, e sinaliza risco imediato de infarto. Já a angina vasoespástica (ou de Prinzmetal) resulta de espasmo das artérias coronárias, pode ocorrer em repouso e frequentemente à madrugada, mesmo em pacientes sem obstrução significativa.
A Diretriz Brasileira de Doença Coronariana Crônica (SBC, 2025) destaca que a angina vasoespástica e a disfunção microvascular coronariana são cenários que coexistem com a doença aterosclerótica, e seu diagnóstico tem implicações prognósticas e terapêuticas relevantes. Isso reforça a necessidade de avaliação especializada — o tipo de angina determina o tratamento mais eficaz e o nível de urgência do caso.
3. Como identificar os sintomas da angina
Reconhecer os sintomas da angina é um passo fundamental na prevenção do infarto. O problema é que muitos pacientes descrevem o desconforto de formas que não correspondem à ideia popular de "dor no peito", o que retarda a busca por cuidado médico e aumenta o risco de complicações graves.
Os termos mais usados pelos pacientes para descrever a angina são "aperto", "opressão", "queimação" ou "peso". Dor em pontada ou relacionada à respiração ou posição raramente é isquêmica. A dor típica de angina localiza-se, geralmente, na região retroesternal ou precordial, com irradiação para braços, pescoço, mandíbula ou dorso, mais frequentemente à esquerda.
Além do desconforto torácico, a angina pode se apresentar por meio de sintomas equivalentes — como falta de ar durante esforço, fadiga desproporcional ao esforço realizado, suor frio ou náusea. Esses equivalentes isquêmicos são especialmente frequentes em mulheres, idosos e pacientes com diabetes, grupos nos quais a apresentação atípica da angina é regra, não exceção. A diretriz da SBC de 2025 sobre dor torácica alerta que entre 10% e 30% dos casos de síndrome coronariana aguda não se apresentam como dor torácica, incluindo equivalentes isquêmicos como dispneia e diaforese. Portanto, qualquer sintoma novo e recorrente durante esforço merece avaliação cardiológica.
4. Angina instável: quando o risco de infarto é imediato
A angina instável representa uma das maiores emergências da cardiologia. Diferente da forma estável, ela não obedece a padrões previsíveis e pode surgir mesmo durante o repouso completo, frequentemente como precursora direta do infarto agudo do miocárdio. Saber identificá-la é uma questão de sobrevivência.
A síndrome coronariana aguda sem supradesnivelamento de ST — categoria que inclui a angina instável — pode causar morbidade significativa e mortalidade se não for tratada de forma imediata e adequada. O atraso no tratamento apropriado pode resultar em desfechos adversos graves.
A estratificação de risco inicial deve basear-se em uma combinação de história clínica, sintomas, sinais vitais, achados físicos, ECG e biomarcadores de lesão cardíaca. O eletrocardiograma de 12 derivações deve ser obtido imediatamente — dentro de 10 minutos — em pacientes com desconforto torácico em curso. Esses critérios da AHA/ACC ressaltam a urgência absoluta diante de qualquer suspeita de angina instável: cada minuto de atraso aumenta a extensão do dano miocárdico. A angina que muda de padrão, piora progressivamente ou ocorre em repouso é uma indicação de ida imediata ao pronto-socorro.
5. Como o cardiologista diagnostica a angina
O diagnóstico preciso da angina exige uma abordagem estruturada que combina avaliação clínica detalhada, exames eletrocardiográficos, testes funcionais e, em casos selecionados, métodos de imagem avançados. No Instituto Inject, essa investigação é realizada de forma completa, sem necessidade de encaminhamentos externos.
As diretrizes de 2024 da ESC para síndromes coronarianas crônicas recomendam que o manejo do paciente com suspeita de doença coronariana envolva quatro etapas, sendo a primeira uma avaliação clínica geral focada nos sintomas e sinais da doença, com diferenciação de causas não cardíacas de dor torácica e exclusão de síndrome coronariana aguda.
Entre os exames utilizados na investigação da angina estão o ECG em repouso, o teste ergométrico (que identifica isquemia induzida por esforço), o Holter 24 horas (para detectar episódios de isquemia silenciosa ou arritmias associadas), o ecocardiograma (que avalia a função ventricular e alterações de motilidade) e a tomografia de coronárias. As diretrizes de 2024 da ESC recomendam um modelo de probabilidade clínica ponderado por fatores de risco para estimar a probabilidade de doença arterial coronariana obstrutiva, classificando mais indivíduos em categorias de muito baixa e baixa probabilidade, onde investigação adicional pode não ser necessária. Essa abordagem racional evita exames desnecessários e concentra a investigação nos casos de maior risco.
6. Tratamento da angina: do medicamento à intervenção
O tratamento da angina tem dois objetivos centrais: reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida, ao mesmo tempo em que se previne a progressão para infarto ou morte. A abordagem moderna combina mudanças no estilo de vida, terapia medicamentosa otimizada e, quando indicado, procedimentos de revascularização.
No campo farmacológico, os betabloqueadores reduzem a frequência cardíaca e o consumo de oxigênio pelo miocárdio, diminuindo as crises de angina. Os nitratos promovem vasodilatação e alívio rápido das crises. Os bloqueadores dos canais de cálcio também reduzem a demanda miocárdica e são especialmente úteis na angina vasoespástica. Estatinas de alta potência, antiagregantes plaquetários e inibidores do sistema renina-angiotensina compõem a terapia de proteção cardiovascular.
O ensaio clínico ORBITA 2, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, demonstrou pela primeira vez que a intervenção coronariana percutânea (angioplastia) utilizada como monoterapia para alívio da angina — em comparação a procedimento placebo — reduziu significativamente os episódios anginosos em pacientes com angina e isquemia comprovada. Esse resultado reforça que a revascularização tem papel real no controle sintomático da angina em pacientes selecionados, devendo ser considerada quando o tratamento clínico otimizado não é suficiente para controlar os sintomas.
7. Fatores de risco e prevenção da angina
A angina raramente surge do nada. Ela é, na maior parte dos casos, o resultado de anos de exposição a fatores de risco cardiovascular que aceleram o processo de aterosclerose — o acúmulo de placas nas paredes das artérias coronárias. Controlar esses fatores é a forma mais eficaz de prevenir tanto a angina quanto o infarto.
Os principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença coronariana e da angina incluem hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemia (especialmente LDL elevado), tabagismo, obesidade abdominal, sedentarismo e histórico familiar de doença cardiovascular precoce. O estresse crônico e a privação do sono surgem cada vez mais na literatura científica como fatores independentes de risco.
A Diretriz Multissocietária de 2023 da AHA/ACC para o manejo da doença coronariana crônica preconiza uma estratificação de risco refinada utilizando tanto testes diagnósticos não invasivos quanto invasivos, em conjunto com escores de risco validados, com categorização em risco anual baixo, intermediário e alto para eventos cardiovasculares adversos maiores. Esse modelo permite individualizar as metas de tratamento e a intensidade das intervenções preventivas para cada paciente com angina ou com risco de desenvolvê-la.
8. Quando procurar atendimento de emergência
Saber o momento exato de procurar atendimento de emergência pode ser a decisão mais importante na vida de um paciente com angina. Existem sinais de alerta que distinguem uma crise anginosa típica — que responde ao repouso — de uma situação que exige cuidado imediato e urgente.
Procure emergência imediatamente se a dor ou o desconforto no peito ocorrer em repouso completo, durar mais de 10 a 20 minutos sem aliviar, apresentar intensidade progressivamente maior, vier acompanhada de falta de ar intensa, suor frio, tontura ou desmaio, ou se for um episódio novo em paciente sem diagnóstico prévio de angina.
A Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Emergência (SBC, 2025) recomenda a abertura imediata do protocolo de dor torácica para qualquer dor vigente entre a cicatriz umbilical e a mandíbula, ou para qualquer dor torácica com duração superior a 10 minutos, mesmo que ausente no momento da admissão. Esses critérios foram estabelecidos justamente para evitar que episódios de angina instável ou infarto sejam subvalorizados. A avaliação inicial no pronto-socorro deve focar na rápida identificação dos pacientes com maior risco de emergência cardíaca, utilizando o eletrocardiograma de 12 derivações e a dosagem de troponina de alta sensibilidade para detecção precisa de lesão miocárdica.
FAQ — Perguntas Frequentes sobre Angina
1. A angina sempre dói no lado esquerdo do peito? Não necessariamente. A angina pode se manifestar como dor ou desconforto no centro do peito, no pescoço, na mandíbula, no braço esquerdo ou mesmo no dorso. Em alguns pacientes — especialmente mulheres e diabéticos — o único sintoma pode ser falta de ar ou fadiga intensa durante esforço, sem nenhuma dor torácica evidente.
2. Angina e infarto são a mesma coisa? Não. A angina ocorre quando o músculo cardíaco recebe menos oxigênio temporariamente, mas sem morte celular. O infarto acontece quando esse fluxo é interrompido completamente por tempo suficiente para causar necrose do tecido cardíaco. A angina instável é considerada um estado pré-infarto e requer atendimento de emergência imediato.
3. A angina pode desaparecer sozinha sem tratamento? A crise de angina estável costuma ceder com o repouso em alguns minutos. No entanto, isso não significa que o problema desapareceu — a doença coronariana subjacente persiste e pode progredir. Sem diagnóstico e tratamento adequado, a angina tende a se tornar mais frequente, mais intensa e a evoluir para formas instáveis ou infarto.
4. Posso fazer exercício físico se tenho angina? Depende do tipo e da gravidade da angina. Na angina estável bem controlada, o exercício físico moderado e supervisionado é não apenas permitido, como recomendado pelas diretrizes internacionais — ele melhora a capacidade funcional e a qualidade de vida. Já na angina instável ou mal controlada, qualquer esforço deve ser evitado até a estabilização clínica. A avaliação com teste ergométrico é essencial para definir os limites seguros de esforço para cada paciente com angina.
5. Quais exames o médico pede para investigar a angina? A investigação da angina começa pelo ECG em repouso e pela história clínica detalhada. A partir daí, o cardiologista pode solicitar teste ergométrico, Holter 24 horas, ecocardiograma com ou sem estresse, tomografia de coronárias ou, nos casos de maior risco, cateterismo cardíaco. A escolha dos exames depende do perfil de risco individual e da probabilidade clínica de doença coronariana obstrutiva.
Conclusão
Chegamos ao fim de mais um conteúdo desenvolvido pelo Instituto Inject. Neste blog post abordamos: o que é angina e por que ela ocorre; os tipos de angina (estável, instável e vasoespástica); como identificar os sintomas da angina; a angina instável e o risco imediato de infarto; como o cardiologista diagnostica a angina; o tratamento disponível, do medicamento à intervenção; os fatores de risco e estratégias de prevenção; e os sinais que exigem atendimento de emergência imediato.
A angina é um dos alertas mais eloquentes que o organismo pode emitir. Reconhecê-la, investigá-la com os exames corretos e tratá-la de forma individualizada é o que separa a prevenção efetiva de uma emergência cardiovascular. Cuidar do coração com antecedência é sempre a melhor estratégia.
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Prof. Dr. Estevão Tavares de Figueiredo CRM SP 195033 | RQE 70601-70602/1 Médico Cardiologista | PhD pela USP
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